quinta-feira, 25 de maio de 2017

escuro

o meu rosto
visto por dentro
tem os buracos
duma caraça

mil sóis negros
fornecem energia
para me mover
no meio das coisas

a carne que me envolve
e os sensores
trazem informação
do meu amor

vive lá fora
não cabemos
no mesmo corpo
sem o orgasmo

que funde
os nossos corpos
e por momentos
acelera o tempo

todos os dias
sou invadido
por sonhos
estranhos

abro o corpo
a comida e água
e deito fora
desperdícios inúteis

o tempo passa
sinto-me poroso
a fronteira dissolve-se
tenho medo

lá fora chove
torna difícil a condução
não consigo sair de mim
a porta é a morte

sábado, 20 de maio de 2017

seco


luzes na rua
apontam para o céu
gente nua
aponta para a lua

roda infinita
do destino
manta amarela
do instinto

um velho truque
apenas
o tic tac
dos tempos mortos

fora do destino
encarno nos morros
como o verme
ao nascer do sol

ó vento
do sentimento
qual é a tua
bebe aguardente

a coisa flui
em éter
movem nenúfares
no vale dos vs e fs

segunda-feira, 15 de maio de 2017

cigarro

o silêncio dos meus pais
apagados como cigarros

cimento

a memória desfaz-se
em dias
aleatória
como cebolas
os cotovelos na mesa
na ruminância
do não sentir
doem do desgaste
jactância do incesto
comigo próprio
sou estúpido
como o destino
todos os dias
procuro a minha cauda
não sou o meu destino
estou dentro dele
fostes apanhado
e foges

somos
diferentes
mas temos
algo parecido
não sei o quê
algo diferente
sem fim
como vampiros
que não evoluem
mortais
que só existiram no inicio
tudo se apaga
menos a luz que sai de ti
do nosso eterno amor 

as câmaras não tremem
as luzes não cintilam
a terra não abana
os pés estão presos
no cimento
se vacilas
não cais
de noite
de dia
comandas o sol
e a lua

as abelhas não voam
para o céu
não têm alma
nem pastor
as colmeias são feitas
sem homens
da morte
lua cheia
má sorte
neve
abutres

quarta-feira, 19 de abril de 2017

hospital

(i)

o diabo anda perto
a roer pergaminhos
directo para o hospital
do inferno
vigésimo quinto andar
sala 328 colchão de picos
todos os ossos
partidos
não perco os sentidos
uma tortura impede-me

como é que é morrer
a vista fica mais turva
a boca seca
falta o ar
não sinto o corpo
a cabeça fraqueja
e depois morro
não há milagres
vôo para debaixo do chão

a morte ganha vida
começa numa ferida
e  acaba em glória
a morte não existe
até eu morrer
e depois morri
é o fim da história

(ii)

mas eu moro noutro lado
para além da morte
eu inventei a morte
para meu gáudio
divertimento
enterrem-me já aqui hoje
se não vem
comer-me à mão

no papel branco
no formato digital
no grito da coruja
no trabalho dos vermes
cria-se um novo caminho
há sempre  uma ideia

quando não há ideias
trabalho solitário
como uma larva
solitário parasita
mau da fita
e da escrita
sem tino
e sem rima

(iii)

sou camaleão
gosto do sol
e do sul
a sombra
foge de mim

a minha lua é
maior que a tua
cheia de sonhos
eléctrica
até ferir a vista
do meu
ponto
de vista

fecho
os olhos
anestesiados
o sol desfaz-se
na mesa

(2016)

carrinho de choque

sou um carrinho de choque
que vai contra o mundo
esta noite não há anúncios
vou em frente
eu não sou da natureza
é o meu nome do meio
agora já posso ser eu
super armado
até aos pára-choques
só vejo faíscas
carro 3 é do inimigo
dirige-se a mim
fujo e incendeio
o carro 5
2 gajas tão lindas
não mereciam morrer
desta maneira
sorry baby
eu depois mando-te
um cheque
somos desenhos animados
hoje morremos na pista
mas amanhã estamos aqui
como bonecos de borracha
pára-choques
e preservativos
pára escuta e olha
e és atropelada
na aldeia dos macacos
eu sou o rei da pista
e não tenho amigos
apenas super inimigos
não há semáforos
no seminário dos sonhos
não me apanham

(2016)

no comboio

o rouxinol canta
o futuro de arco-íris
e colibris

o grito do mocho
avisa a visão
a vida sente-se

a natureza morre
na tua frente
míngua a minga

o estratagema
da cobra
corre nesta pena

a mágoa foge
ao lado dos sonhos
e o vazio chega

(2016)