sexta-feira, 21 de julho de 2017

de manhã

de manhã
tu morres no céu
e acordas no frigorífico
as coisas estão más

um gajo pacifico
vive num pudim
veste-se à pinguim

quando consomes
cafés e tostas
e urinas no café
a memória
alarga-se em buracos
cada vez maiores
até ao fundo
do rio


sexta-feira, 14 de julho de 2017

o caçador

sou um erro
toda a gente é um erro
não devíamos existir
como as baleias azuis
presas em anzóis
esqueço-me da história
e adormeço
com a palavra passe
água rás

sopra o vento
candeias azuis
escapulam na madrugada
os tordos dormem na árvore
e eu protejo-os com a caçadeira
quem me dera ser tordo
despreocupado
ou guardador de tordos
a sonhar com frangos da guia
fim sempre estúpido
ponto final




domingo, 25 de junho de 2017

estrada

dentro do coração
o eco falha
entre
as membranas

nas várzeas
acordadas
morrem milhafres
acordo de manhã

marsupiais
mirram milhafres
nos intestinos
aos milhares

trágico destino
os vidros da memória
partem o presente
como aventuras
no espaço

caímos juntos
fios de pé
mortos
vivos

ao nuno

a loja fechou
deixou-me triste
de barriga ao sol
como memória
pouco abstracta
fim sem caminho
sou seu
diz o fogo
que queima as entranhas

estejas onde estiveres
estás cercado
podes chamar os bombeiros
mas ninguém te acode
estás sozinho
lobo solitário
que come a avózinha

igual a mim
é que não
diz o vento
estou perdido
não sei onde deixei as chaves
nem o carro
programei o mundo
e apaguei a morte

já me perdi hoje

canto sozinha
no espaço
da memória
nada dói
no meu canto
da bruxa
que morreu
e  não morre
não sei o que se passou
nem o que se passa
hoje na tarde
sem fim
sou a tua célula
a tua última célula
o coração parte-se
na realidade
sem raízes
morres
em desventura
como se nascesses ontem
e cortassem o cordão
acordava
reaprendia
a andar
sem dor


terça-feira, 30 de maio de 2017

realidade

com o som
do despertador
portas da realidade
abrem-se na madrugada
abro os olhos
e acordo

estou na realidade
se não
estaria morto

teresa triste
como as cerejas
foge o chão dos pés
e  o movimento das nuvens
impede-me de agir

é mais importante esquecer
do que conhecer
a memória
cada vez dura menos
é a realidade
poemas filosóficos
não prestam
para nada

e mesmo os poemas
não prestam para nada
não é essa a sua função
poemas são pombas
que voam e não prestam
são poemas domesticados

ou são corvos que comem
milho e roubam ouro
animais bravos
que nem o poeta domina
e comem as entranhas
da gente só de pensar

nisso
sabíamos
partir para o novo
a  partir do velho

quinta-feira, 25 de maio de 2017

escuro

o meu rosto
visto por dentro
tem os buracos
duma caraça

mil sóis negros
fornecem energia
para me mover
no meio das coisas

a carne que me envolve
e os sensores
trazem informação
do meu amor

vive lá fora
não cabemos
no mesmo corpo
sem o orgasmo

que funde
os nossos corpos
e por momentos
acelera o tempo

todos os dias
sou invadido
por sonhos
estranhos

abro o corpo
a comida e água
e deito fora
desperdícios inúteis

o tempo passa
sinto-me poroso
a fronteira dissolve-se
tenho medo

lá fora chove
torna difícil a condução
não consigo sair de mim
a porta é a morte